Você tem que ver “Kado: The Right Answer” – Hyppers

Chegando um pouco atrasado no bonde dos animes, peguei para assistir “Kado: The Right Answer” (ou “Seikaisuru Kado” no original e “Kado: A Resposta Certa”, traduzido), um pouco depois dele ter finalizado na temporada anterior. Para minha surpresa, é provavelmente uma das animações mais interessantes do ano, bem como uma das mais legais que assisti nos últimos tempos!

“Kado” tem doze episódios (ou treze, se contar um extra lançado no Blu-Ray), e foi desenvolvido pela empresa Toei Animation. Ele foi feito em CGI e olha, mesmo depois de todo aquele artigo sobre o Cel Shading, acho que no caso dessa obra isso se tornou algo que a melhorou muito. Já já eu a explico.

A história é a seguinte: vemos o melhor negociador político do Japão, Shindo Kojiro, acabar sendo “engolido” por um estranho cubo com centenas de metros de área, que surgiu no aeroporto de Tóquio. Junto a ele, mais outras dezenas de passageiros acabam, acidentalmente, entrando neste cubo. Lá eles conhecem o seu dono, um ser chamado Yaha-kui zaShunina.

Este ser veio de uma dimensão superior para ajudar a Terra e a humanidade a evoluírem para o “próximo nível”. E, quando digo dimensão superior, não digo de uma terra paralela ou algo assim, mas sim de uma dimensão física além da nossa. A palavra que usam para designar sua origem é “Anisotrópico”.

Dessa forma, como há uma diferença até na forma de aplicar palavras e intenções, Yaha-kui passa a contar com Shindo para ser seu negociador com a raça humana e não ser interpretado como um invasor ou qualquer outro tipo de ameaça.

E taí, a sinopse da história!

Eu fiquei sabendo desse anime através de um vídeo muito interessante do canal Mother’s Basement, sobre como fazer primeiros episódios impactantes, e, de certo modo, o episódio 0 é uma reviravolta completa na mente do espectador. Neste ep vemos Shindo e seu parça, Hanamori, lidando com uma negociação do governo para comprar as terras de uma empresa. Ao término deste, o surgimento de Kado faz sua cabeça explodir por simplesmente dar um giro de 180 graus no que você esperava da história. Eu sei que estraguei parte da surpresa, mas vale a pena assistir mesmo assim e recomendar para os outros. Esse fator gera muita curiosidade pra ver o que acontece a seguir!

E o anime tem muito daquele lance de linguagem, uma pegada semelhante ao brilhante filme “A Chegada”, de muitos modos, mas não é uma cópia carbono, navegando em vários conceitos além dos mostrados no filme de Denis Villeneuve.

Para começar, o protagonista, Shindo, é um cara fascinante. Ele é mostrado como o melhor negociador do Japão logo de cara, e dá para entender o porque. Ele segue a risca o preceito do que é uma negociação, que é fazer duas partes saírem satisfeitas de uma situação em que, a princípio, antagonizam, e se entenderem. Pessoalmente, eu sempre pensei na palavra “convencer”, como “co-vencer”. Você convencer alguém é mostrar que do seu ponto as coisas terão resultados melhores ou será de um modo mais satisfatório (ou, ser convencido, caso contrário). Você não perde ou ganha, ambos vencem juntos por chegarem em um entendimento mutuamente satisfatório. E Shindo segue isso com forte convicção.

É exatamente disso que Yaha-kui precisa: alguém que consiga servir de fonte para seu desejo de elevar a humanidade e que permita isso acontecer sem interferência. Por exemplo, um dos seus primeiros gestos de boa vontade, é fornecer o Wan. O Wan é um par de esferas que, quando ligadas em qualquer condutor, geram energia infinita e limpa. Ou seja, você pode usar tanto para um controle remoto quanto pra fornecer energia para uma cidade inteira com eles. A forma como eles funcionam é retirando energia de fora da dimensão e convertendo para a nossa.

Claro que isso acaba gerando vários problemas. Por exemplo, imagine se desenvolvem um sistema de energia limpa e gratuita, como reagiriam as grandes empresas elétricas, de combustíveis e por aí vai? Claro que as nações que se sustentam também não iam ficar paradas, pois qualquer país com algo assim teria uma vantagem imensa economicamente falando.

Ao mesmo tempo, a obra também fala de vários conceitos super interessantes da física, como as muitas dimensões que existem no nosso universo, o que há além dele e coisas assim. Nesse caso, o fato de ser feito em 3D ajudou ele a ter um visual diferente, que comportasse várias das explicações e momentos da série! Além do que, os personagens parecem mais animações mesmo, só ficando estranho quando se movimentam muito, pois os movimentos ficam ligeiramente “anormais”.

Mas o legal de “Kado” é justamente esse: se propor a pensar em como a humanidade está se desenvolvendo, dos inúmeros problemas que nos cercam e como podemos seguir adiante no nosso caminho evolutivo. Em dado momento a pergunta “É muito legal o que o Yaha-Kui zaShunina está nos dando, mas a humanidade merece mesmo ganhar esses avanços de bandeja?”, pinta no ar, e você também passa a pensar sob esse aspecto.

É isso o que um bom sci-fi faz com sua cabeça, ela mostra várias coisas que você não imaginava e também traz esse diálogo sobre várias questões que a situação apresenta. E aí, boa parte do trabalho você faz sozinho, com essas novas ideias na sua cabeça. Quando uma historia tem conceitos muito bons mas não consegue apresentá-los devidamente, você só fica ali na janelinha curtindo, mas “Kado” é um daqueles que te marcam e te instigam a repensar várias de suas pré-concepções sobre o mundo e a humanidade!

Não vou dar muitos spoilers, mas basta dizer que as coisas nunca são tão simples quanto parecem, só que ao mesmo tempo também não são tão complexas. Basta olhar de uma outra forma que você vê novos ângulos, ou o ângulo certo, para dar a resposta certa que precisa.

Atualmente estão fazendo uma adaptação para o mangá, que espero que faça jus a obra original (sim, isso não foi uma adaptação de mangá/light novel para anime, o que está se tornando raro). Se você tiver uma oportunidade de assistir “Kado: The Right Answer”, o faça, pois é o tipo de anime que pouca gente vai comentar, mas que muitas pessoas precisam ver!

Escritor, roteirista de quadrinhos, jornalista, cozinheiro, Jogador de Magic e RPG, dentre outras façanhas incríveis e inimagináveis!"Como estou redigindo?"