Será que o Senhor Milagre pode escapar da insanidade? – Hyppers

Será que o Senhor Milagre pode escapar da insanidade?

Hyppers Alerta: O Texto abaixo contém spoilers de histórias ainda não lançadas no Brasil! Siga por sua própria curiosidade e risco.

O roteirista Tom King é relativamente novo no ramo dos quadrinhos, mas seus trabalhos mais recentes vem chamando um destaque para seu estilo de contar histórias. Suas obras mais proeminentes em uma carreira que male male tem 5 anos, são “O Xerife da Babilônia” (lançado há pouco pela Panini), e também um run do Visão, com doze edições, que ganhou o prêmio Eisner (e já foi anunciada que sairá aqui).

Na DC, ele vem trabalhado com o Batman, que talvez não seja tão bom como os outros dois, mas uma outra HQ que está sendo lançada essa semana promete ser tão interessante quanto os outros trabalhos de destaque de Tom. Essa é a nova HQ do “Senhor Milagre”, que ele está lançando com uma arte fenomenal de Mitch Gerards!

Para quem não conhece, o Senhor Milagre é uma criação do lendário Jack Kirby e faz parte do “Quarto Mundo”, o universo onde há uma constante guerra entre os planetas de Nova Gênese e Apokolips e de onde saiu o temível Darkseid. Em uma tentativa de paz, os líderes dos dois planetas, o Pai Celestial e o Darkseid “trocaram filhos”, para um criar o outro. Órion foi para Nova Gênese enquanto o Senhor Milagre, o alter-ego de Scott Free, foi para Apokolips.

Enquanto o beligerante Órion foi aprendendo os meios mais pacíficos de Nova Gênese, Scott foi jogado aos cuidados da “Vovó Bondade”, em um orfanato onde são treinados a elite dos guerreiros de Apokolips. Entretanto, não aguentando a rotina que era submetido, ele constantemente tentava escapar, falhando muitas vezes e sofrendo as consequências.

Porém foi nesse lugar que ele conheceu o amor da sua vida, a Grande Barda, que era uma das guerreiras de elite das Fúrias de Apokolips. Com seu jeito único, Scott conquistou Barda e mostrou para ela que o mundo é muito mais do que guerra, destruição e glória a Darkseid como prega a lavagem cerebral da vovó. Consequentemente, os dois escapam para a Terra, onde passam a ser heróis, viram parças do Superman e aí é vida que segue.

Depois de um longo tempo sem estrelar sua própria revista, Scott Free conseguiu escapar da geladeira para uma produção mais voltada para o público maduro, e pode estar caindo dentro de uma obra de excelente qualidade!

Para começar, vemos logo de cara que as coisas não vão bem para ele. A Primeira página é um close em seu rosto, com muito pontilhado, simulando os gibis mais antigos, a quatro cores. Ele faz uma expressão mais vazia e, quando viramos a página, vemos o motivo disso (e a razão pela revista ser para maiores). Scott com os pulsos cortados!

Eu demorei um pouco para assimilar o impacto dessa cena que já te joga em sequência numa colagem de eventos que vão do hospital, para o pesar de Barda, para uma reabilitação e tudo mais. É o tipo de coisa que eu tive que reler mais de uma vez pra captar todas as nuances que haviam em cada quadro, balão e expressão colocada. Isso pois eu não imaginava que era um suicídio que ele havia tentado. Eu não pensei que iam jogar de cara um herói como ele numa posição dessas e foi bem surpreendente para o começo de uma história.

E não fui só eu que fui surpreendido. Quando ele volta para casa, a primeira pessoa (tirando Barda), que o recebe, é seu pseudo-irmão Órion, que provavelmente ficou sabendo do que Scott tentou fazer e tentou demonstrar um “afeto” para seu irmão.

Barda vê o que está rolando e dá um chega pra lá em Órion. Na real, ela dá uma verdadeira “comida de rabo” nele que ele sai rapidinho de vista. Ele disse que estava o “ensinando”, meio que “ensinando que a vida é dura”, mas Barda fala que ele não manja nada pois foi criado em Nova Gênese enquanto eles cresceram nos Fossos de Apokolips.

Outra cois aque me chamou a atenção é que, em dado momento, Scott, depois de levar altas muquetas de Órion, diz que os olhos de Barda eram azuis, mas que agora eles estão castanhos, enquanto a própria Barda estranha e diz que eles “sempre foram castanhos”. Guarde esse fato na cabeça!

Logo depois, vemos ele se apresentando em um programa de TV (detalhe, o nome do programa é “Late Night with Godfrey”). Até mesmo os quadros parecem com ondulações e uma certa estática que só quem já teve uma TV de Tubo e uma antena de Pirâmide saca como é. Ele faz um truque de escapismo e então comenta um pouco sobre o que ele aconteceu com ele.

Basicamente, Scott aparece até bem pra cima, fazendo graça e etc, e querendo falar sobre o que aconteceu com ele.

Segundo sua explicação, ele estava meio cansado de repetir tudo o que já fez. Cada nova escapada já era uma velha conhecida para ele, então ele quis tentar algo novo. Como dizem que “Da morte não há escapatória”, o Senhor Milagre tentou escapar da própria Morte. Por isso ele tentou se matar e tudo mais…

Claro que parece um pouco de balela, mas o detalhe é que o apresentador faz uma pergunta: “E você, conseguiu escapar mesmo da morte?”, para a qual Scott fica sem resposta por um momento, e saímos dessa sequência da história.

Em seguida, vemos que Scott conversa um pouco com o Pai Celestial, que comenta que conseguiu um espião em Apokolips e que o próprio Darkseid finalmente conseguiu descobrir a “Equação Anti-Vida”. Ele também fala que com essa equação, Darkseid seria capaz de mudar vidas e a própria realidade, o que o tornaria uma ameaça ainda maior.

Depois disso, vemos Scott com seu parceiro Oberon, que o ajuda com um ensaio de mais um truque. Mas é aí que chega a Barda e diz o que aconteceu com o baixinho…

Oberon teria morrido de câncer na garganta por conta dos cigarros. Morreu tem cerca de um mês, ou algo assim. Além disso, parece que foi o próprio Scott que autorizou que desligassem os aparelhos que mantinham o vivo, ou algo assim. Mas o próprio Scott mesmo, neste momento, não se lembrava desse acontecido.

De noite, confuso, ele acorda com uma mensagem de Órion pela Caixa Materna. O Pai Celestial morreu e as forças de Darkseid estão em polvorosa. Nova Gênese e Apokolips podem entrar na sua Derradeira Guerra. Ele é invocado para participar.

Tanto ele quanto Barda se preparam para saltar via um Tubo de Explosão e, neste momento, no final, Scott confessa que acha que não pode escapar do que está acontecendo com ele. Barda então repete exatamente o que Órion fez, dando um tapa para desmontá-lo, mas ao mesmo tempo, acordar ele pra realidade.

Scott se levanta e eles partem, assim terminando essa edição.

Nesta primeira parte da história de Scott, dá para sentir que ele está ficando cada vez mais desprendido da realidade. São vários fatores na história que levam a crer que realmente, ou Scott está morrendo ou está ficando insano de alguma forma.

A primeira coisa que dá para notar é que, em vários momentos a arte de Mitch apresenta efeitos que dão uma impressão de desprendimento da realidade. O começo da história, por exemplo, parece uma foto de uma HQ pontilhada. A forma como os acontecimentos voam no começo da história. Até mesmo na parte da televisão, parece que a arte quer mostrar que tem algo errado, oscilando, acontecendo com Scott. O detalhe para o nome do programa “Late Night With Godfrey”, também serve para isso, pois “Glorioso” G. Gordon Godfrey é um personagem ligado à Apokolips. E durante toda a edição vemos quadros pretos escrito “Darkseid is”, ou “Darkseid É”, reforçando uma certa influência mais direta do Ditador Planetário que, lembrando novamente, teria acesso a “Equação Anti-Vida”.

Se soma a isso alguns fatos como vermos ele se enganando da cor dos olhos de Barda (algo que ele nunca faria), e imaginando estar falando com Oberon quando, na verdade, ele já teria morrido há algum tempo. Eu também achei estranho uma parte onde a Barda fala pro Órion que “só a Vovó ensina”, quando ele está batendo no Scott, pois tem algo muito de estranho nisso. Um estranho não de errado, mas de propositalmente colocado pelo autor no diálogo!

E sem falar no fato que começamos a história com o personagem principal tentando se matar. Acredito que dê para concordarmos que o suicídio é algo devastador que é engatilhado por uma série de fatores, e é um assunto muito mais complexo do que muitos imaginam. Várias mortes recentes como a de Chester Bennington, do “Linkin Park”, fazem muitas pessoas coçarem a cabeça para o motivo dos falecidos tomarem essa decisão.

É claro que, por N razões, a pessoa pode acabar por escolher acabar com sua própria vida e que, seu estado emocional e mental pode ter um grande peso nessa decisão. Justamente algo que, aparentemente, Scott está passando nessa história. Não dá para saber se ele luta contra a morte em si, contra a loucura, contra a depressão, ou se todas essas coisas juntas são análogas em sua batalha/escapada. Mas é bem claro esse simbolismo que King e Gerards colocam na história em múltiplos detalhes.

Se for isso mesmo que Scott está passando, é um momento bem propício para ser trabalhado numa história e todo o seu poder icônico como herói (e artista das escapadas), ajuda a se trabalhar com um outro nível de riqueza que, talvez, um outro personagem não trouxesse.

Outro detalhe que quero colocar é que, se essa não for uma realidade virtual e Scott quer escapar no melhor estilo “Inception/Matrix” (que, caso aconteça, tem potencial para ser bom e ruim, dependendo do modo que trabalhem), a Barda está um MULHERÃO DA P0%#@ nessa história. Sério, super emocionante, companheira, que não leva desaforo para casa, dá suporte, dá porrada, dá chega pra lá e aguenta essa barra que é gostar de você, Scott Free. É um casal que merece ser mais explorado pois já a muito tempo temos aí um exemplo de um cara até que frágil como Scott, amando e sendo amado uma mulher super-forte como é a Barda! Por sorte, parece que é isso que teremos nas próximas edições!

Por fim, acho que temos aqui o Tom King no caminho certo para ele: misturando super-heroísmo com cotidiano. Não é algo inovador, visto que Stan Lee já tinha pensado em coisas assim nos anos 60, mas é lidando com problemas mais atuais e relevantes para os leitores que ele atualiza esse tipo de abordagem e mostra o que tem de melhor como roteirista para os leitores, bem como o seu diferencial neste mercado!

Escritor, roteirista de quadrinhos, jornalista, cozinheiro, Jogador de Magic e RPG, dentre outras façanhas incríveis e inimagináveis!"Como estou redigindo?"