Ter uma mulher como “Doctor Who” irá prejudicar a série? – Hyppers

Ter uma mulher como “Doctor Who” irá prejudicar a série?

NÃO.

A resposta é: NÃO!

Geralmente eu começaria o texto com algum insight a respeito da escolha, da série ou algo semelhante, para seguir com um histórico e, posteriormente, uma dissertação à respeito dos prós e contras, para então responder o título/pergunta do texto, mas esse é o tipo de matéria que tem que abrir diretamente com uma resposta a indagação inicial. Você precisa já saber o que penso antes de seguirmos com o “curso nacional das coisas”.

Mas para você que está perdido no bonde, vamos rebobinar um pouco a fita: ontem foi revelado quem vai assumir o auspicioso décimo terceiro manto do Timelord “Doctor”, na série britânica “Doctor Who”. Para a surpresa de muita gente o escolhido foi uma escolhida: Jodie Whittaker, que participou da série “Broadchurch” (que também conta com o ex-Doutor David Tennant), e irá estrear com o novo showrunner e comandante do Doutor: Chris Chinball!

Caso ainda não tenham visto o trailer, vejam aí:

Claro que, como uma obra antiga, existindo desde 1963 e até hoje sendo exibida (apesar de vários anos de hiato entre suas muitas temporadas), ela tem muitas tradições e fãs antigos. Ou seja, gente que vê a série por muito tempo e já tem algumas coisas dadas como sagradas e imutáveis. Entre elas o fato que o Doutor só poderia ser interpretado por um homem inglês caucasiano com sotaque proeminente.

Vou ser bem sincero e dizer o seguinte: vou achar estranho a mudança! Mas até aí, o que tem de errado em um pouco de mudança e qualquer estranheza inicial que ela irá gerar? De fato, isso é uma das pedras mais fundamentais na série ao longo dos seus anos: como ela tem esse jeito de mudar para permanecer viva e como a estranheza da mudança de atores (não só de gênero), é aproveitada para impulsionar a série para frente.

E não é como se isso fosse uma mudança inédita!

Vamos mencionar o arquirrival do Doutor: O Mestre! Por muitos anos, este Timelord maligno voltou para importunar o Doutor com seus planos malignos. O último que apareceu, foi interpretado por John Simm (que até mesmo retornou para o papel nesta temporada), para depois ser transformado em Missy, a “Mestra” do mal com um toque de Mary Poppins satânica, interpretada por Michelle Gomez! Quando Missy surge, não há uma cena de regeneração ou coisa do tipo, então teve até muita gente que acreditou que não era exatamente o mesmo personagem e que esse tipo de transformação de gênero não deveria ser possível (dentro do universo de DW).

Mas um pouco antes, no final da Nona Temporada, tivemos o “General”, interpretado por Ken Bones, um ator caucasiano, em parte do episódio. Quando é forçado a regenerar, o intérprete passa a ser a atriz T’Nia Miller que não só é mulher como é uma afrodescendente e a regeneração foi mostrada como possível e sem enrolação alguma!

Sem falar que o próprio papo de uma mulher assumir o manto de um doutor é antiga. Em 1981, o quarto Doutor, Tom Baker, foi perguntado que tipo de homem seria o seu sucessor no papel. A resposta de Tom foi “Quem que te disse que vai ser um homem?”. O que gerou um rebuliço entre fãs e críticos na época com a possibilidade de uma regeneração feminina e já foi um precedente para isso se tornar possível!

Também vale destacar que em 1999, durante um especial de Natal da BBC para a caridade chamado ”The Curse of Fatal Death” (ou “A Maldição da Morte Fatal”), alguns anos antes do revival atual do Doutor, tivemos algo semelhante. Neste especial, vemos vários atores assumindo o manto do Doutor e se regenerando múltiplas vezes (pois era um episódio mais cômico e não canônico), Entre os atores convidados tivemos Rowan Atkinson (o Mr. Bean), e Hugh Grant. Mas o mais interessante é que a 13ª Regeneração foi feita justamente por uma mulher, a atriz Joanna Lumley. O engraçado é que quem escreveu este episódio foi Steven Moffat, o Showrunner que passou a tocha para Chris no comando do Doctor. Pode até ser que ele teve uma previsão sobre esta mudança no personagem muitos anos antes, ou apenas dando a entender que seria algo que ocorreria normalmente.

E se você para e analisa… Não é justamente sobre isso que se trata “Doctor Who”? Mudança e adaptação, em parte, são coisas inerentes da série. Quando William Hartnell adoeceu, decidiram mudar o ator e criaram o conceito da regeneração para explicar o motivo. Com isso, eles puderam alterar o protagonista através dos anos e manter a série no ar por décadas!

A cada novo Doutor muita coisa mudava com ele. A série se adaptava as novas tendências, aos novos conceitos que a própria sociedade, tecnologia e cultura apresentavam e assim a série conseguiu permanecer duradoura, interessante e vívida através dos anos. Diachos, a própria estrutura de boa parte das histórias é justamente mostrando o Doutor parando em situações complicadas e usando sua inteligência, esperteza e humanidade para aprender o que está acontecendo, ver como lidar com isso, adaptando-se aos conflitos e descobrindo uma fórmula para se salvar, bem como todas as pessoas que estão com ele.

Sem falar que a própria série só consegue prosseguir se há interesse do público e é difícil manter gente interessada por muito tempo se você continua preso no mesmo ciclo de possibilidades. Depois do Nono, Christopher Eccleson, tivemos um Doutor que se envolveu até romanticamente com alguém, seguido pelo ator mais novo a interpretar o personagem, e depois, por alguém mais velho. Claro que eles poderiam mudar para N tipos masculinos e isso ter sua própria influência na história, mas a simples alteração para uma mulher abre muitas novas possibilidades de histórias para o personagem, o que pode renovar o interesse de gente que já estava um pouco entediada com os rumos da franquia, por exemplo!

Enfim, se teve algo que aprendi com o “Doctor Who” é que as coisas mudam. Você estranha a princípio, mas elas podem ser maravilhosas se você permitir. A percepção do mundo e do universo que as pessoas tem ao andarem com o Doutor é exatamente isso: uma expansão de suas ideias e conceitos restritos ao ver como o cosmos é grande e que os humanos só são pequenos se permanecem isolados em seus mundinhos de preconceitos.

Resumindo: a série não vai ser prejudicada por ser o que é. Na verdade, quem tem a perder é mais o pessoal que vai largar de assistí-la por conta disso (e vai ter muita gente que fará isso). Ao mesmo tempo, muita gente vai começar a assistir por conta dessa mudança. O lance da representatividade é algo real que pode e faz mais pessoas se interessarem por algo que antes ignoravam e se sentirem mais conectados com a obra de uma forma que não eram antes.

E, quem sabe, no futuro isso não acaba passando para outras séries e filmes? Já vemos nos quadrinhos personagens como Coração de Ferro, Capitã Marvel, a Thor e por aí vai, que são mulheres que passaram a vestir o manto de homens. Pode ser que daqui uns anos a ideia de um 007 mulher, por exemplo, não seja algo impensável. E isso passe a valer não só para obras fictícias, como para a realidade da nossa sociedade em várias ocupações, cargos e posições! É só uma conjectura, mas é assim que a gente vai para frente como país, planeta e raça.

Ou seja, se você está achando ruim, espere para ver as histórias primeiro. A única coisa que se pode criticar é se as histórias contadas forem ruins, o que é outro departamento! Tirando isso, faça como o bom Doutor/boa Doutora e aprenda com a mudança, sempre para melhor, sempre frente, pois isso não é nada mais do que aprender a viver a vida como ela deve ser vivida.

Allons-y!

Escritor, roteirista de quadrinhos, jornalista, cozinheiro, Jogador de Magic e RPG, dentre outras façanhas incríveis e inimagináveis!

“Como estou redigindo?”