O dia que o Rock explodiu minha cabeça – Hyppers

Neste 13 de junho eu estava pensando em algumas pautas que poderia escrever, em razão do dia do rock. Nas idas e vindas de pensamentos a gente acaba tendo várias ideias em potencial. Pulando entre várias linhas possíveis, quando tentava elaborar algo de como o rock mudou o mundo, me peguei pensando “como o rock mudou o meu mundo?”. Ao invés de sair contado histórias de turnês colossais, discos lendários, drogas e sexo de baciada, coisas que cercam a maioria das estrelas do rock, mais importante do que tudo isso é o que o rock representa para cada indivíduo amante do estilo. Aquela pequena revolução que pega a gente de surpresa e, quando percebemos, muda nossa impressão da vida, abrindo caminhos que sequer sabíamos que existiam. Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo pelo menos.

Essa história começa lá em 1997, vinte anos atrás. Este pequeno gafanhoto sempre gostou de música, passava as tarde fazendo lição de casa ou o quer que fosse com um rádio por perto. Mesmo tendo um irmão mais novo, estudávamos em períodos diferentes, então posso dizer que minha infância foi um tanto quanto solitária. Assim os caras da rádio eram minha companhia.

Influenciado pela minha tia talvez, minha “rádio de estimação” era a Jovem Pan, famosa por tocar os artistas “da moda”. Nunca morri de amores por nenhum material em especial, mas eu sempre escutava tudo que saia por lá. Embora eu gostasse de ouvir música, não havia nenhum laço que me prendia a ela. Eu só ouvia.

As coisas começaram a mudar quando compramos uma TV nova em casa, que sintonizava os canais UHF (caramba, isso é bem coisa de velho mesmo haha) e que foi instalada no meu quarto. O que isso significou? Que agora eu teria acesso à MTV. Aquela MTV marota, raiz, que passava as vinhetas encharcadas de LSD e que de fato tocava música. Conheci muitas bandas por lá mas, novamente, ainda não tinha um paladar musical específico.

Até um dia uma mísera propaganda mudar minha vida. Eram uns caras girando dentro de um quarto, cantando alguma coisa que devia ser algo muito doido, berrando uns “Yeah” vindos lá do fundo da alma e um refrão que parecia uma martelada. O que raios era aquilo? Não demorou muito para eu conseguir descobrir o que a música era The Memory Remains e a banda era o Metallica. A minha reação depois de ouvir a música foi uma só:

Eu assistia aquilo e ao mesmo tempo que estava confuso, algo ali me hipnotizava de uma maneira que eu jamais sequer poderia imaginar que seria possível. Aqueles caras tinham estilo, pareciam nervosos, o vocalista era incrível com aquela voz rasgada, a sala continuava a rodar, ai tinha uma velha cantando e… meu Deus!! Tudo bem, eu sei que o Metallica naquela época estava em uma fase mais “suave”, mas vejam pela ótica de um garoto de 12 anos que só ouvia música enlatada. Foi um verdadeiro soco no estômago.

Não demorou muito para o segundo clipe do ReLoad pipocar e finalizar essa primeira parte do trabalho: The Unforgiven 2. Embora seja uma música mais calma, o peso do refrão, as caras e bocas de Hetfield no clipe e cenas que pareciam não fazer muito sentido eram tudo que eu precisava, sem ao menos eu saber que eu precisava. Daí foi um pulo até comprar o álbum, o primeiro CD que comprei na vida e fazê-lo tocar como se minha vida dependesse disso.

Com o passar do tempo, fui cavando mais esse poço. Outras bandas foram aparecendo e caindo no meu gosto, de Raimundos a Sepultura. Mas nenhuma superava o efeito que o Metallica tinha gerado em mim. Eu saí buscando pela internet todas as biografias da banda (sempre aparecia uma informação nova), traduzia as letras mesmo não entendendo muito de inglês e, na medida do possível, tentava conhecer mais dessa banda. Lembrem-se que estou falando do final dos anos 90, o download de uma música levava horas, então não era um trabalho fácil.

Foi descobrindo o material antigo da banda que, para minha surpresa, o raio caiu uma segunda vez no mesmo lugar e, novamente, o Metallica explodiu minha cabeça . Foi quando conheci “One”.

Por uma segunda vez tive aquela sensação de “o que está acontecendo aqui?”, mas ainda mais pesada. A transição entre a calmaria da primeira parte com a brutalidade da segunda era fantástica . No alto dos meus 13 anos, “One” era a coisa mais insana que eu já tinha ouvido na vida. Devo dizer que nesse período eu tive alguns problemas na escola, no que hoje classificariam como bullying. Aquele vocal infernal, os bumbos socando meus tímpanos e as guitarras massivas me ajudaram muito a lidar com aquilo, mesmo que de forma inconsciente.

Depois disso, o resto é história. A coleção de CDs foi aumentando, a busca por bandas novas era constante ao mesmo passo que minha devoção ao Metallica só crescia e a paixão pelo rock foi aumentando até virar um amor eterno. Já não era mais ouvir música por ouvir, para quebrar o silêncio apenas. Para mim o rock foi, e ainda é, uma forma que encontrei para me entender melhor. Geralmente meu estado de espírito reflete muito o que eu estou ouvindo, seja um sentimento negativo ou positivo, e isso me ajuda muito a lidar com emoções.

Não estou afirmando aqui que gostar ou não de rock te faz uma pessoa melhor ou pior. Não é isso que define o sujeito. Mas gosto de pensar na música como um agente de mudança, seja rap, música clássica, jazz ou o rock’n’roll. O grande lance é te expor a algo que você não está preparado. Trazer algo diferente, tirar você do lugar comum, te deixar indignado e incomodado ao mesmo que pode te confortar, te motivar ou te dizer palavras que você precisa ouvir. E foi isso que o rock fez comigo, me tirou da inércia ao qual eu vivia.

Eu poderia aqui continuar contando minha saga com o Metallica — que tem até uns CDs autografados, morram de inveja haha — mas isso fica para outro dia. Agora eu deixo a pergunta para você, amigo leitor. Qual foi a música (ou as músicas) que foi sua porta de entrada para o rock’n’roll? Aquela que puxou o gatilho e fez você ouvir o mundo com outros olhos? Qual foi o rock que explodiu sua cabeça?

Formado em design de jogos, tentando ganhar a vida com esse negócio chamado videogame. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA.